O QUE É CURABULA?
É uma bula para curar. A bula é um livro. Do amor aos livros nasce a partilha, o clube, a irmandade. Curabula Livroclube é um projeto que aproxima livros e leitores e cria clubes em escolas, associações, comunidades, bibliotecas, espaços de arte. Cria clube aqui na Internet, também. Há duas outras modalidades, além do Curabula Livroclube, propriamente dito. O Curabula Social, que abre portas para quem não deve temê-las, e o Curabula Pessoal, que estimula a troca de ideias para fazer crescer o leitor que há em todos nós.

domingo, 22 de novembro de 2009

O Burlador de Sevilha

Não sei muito bem se terminei de ler um livro, ou um libreto. Acho que os dois, mesclados. São duas histórias que correm paralelas, as duas baseadas num mesmo personagem: Don Juan.
O primeiro conto a registrar a história de Don Juan foi El burlador de Sevilla y convidado de piedra (datado em 1620, não se sabe o autor). Don Juan seduzia as mulheres disfarçando-se de seus amantes ou lhes prometendo o matrimônio. Alguns pretendem que era um conquistador barato; outros, que amava realmente nas mulheres, que apaixonava-se por sua beleza interior.
Sevilha é o pano de fundo para dois Don Juans que João Gabriel de Lima elabora como personagens de seu romance de estreia. Um, podemos identificar como o conquistador barato; o outro, como este grande apaixonado. Numa das histórias, ambientada na Sevilha atual, o Burlador é um conquistador compulsivo, que usa a internet como meio de encontrar suas amantes. Na outra, o personagem é cantor do coro do teatro lírico, e encontra Susana, funcionária de uma agência de viagens. A Sevilha que lhes serve de cenário, no entanto, não é a Sevilha física, mas a Sevilha das óperas.
Nosso conquistador aqui narra as histórias de Carmen e Don Giovanni, sem identificá-las, à Susana, sua amada que detesta ópera. Susana, porém, se encanta pelas narrativas, e aos poucos os dois vivem intensamente uma paixão de fantasia e sexo. Faz lembrar o romance de Bernhard Schlink, O leitor, em que o casal Hanna Schmitz e Michael Berg se envolvem por meio da literatura; são as narrativas que ele conta a ela que sustentam a relação.
Uma curiosidade é que nem Bizet, nem Mozart usaram a Sevilha física como inspiração de cenário para as suas respectivas obras – Carmen e Don Giovanni. Uma Sevilha que não existiria para eles se não fosse a cidade que gerou o mito de Don Juan. Enquanto Don Giovanni é assumidamente baseado na história de Don Juan, Carmen não. Mas, se pensarmos bem, esta bela cigana que seduz todos os homens que encontra a sua passagem, não seria talvez um espelho de Don Juan, caso fosse uma mulher?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Muito além da contracapa

O leitor que caminha por uma livraria (em qualquer lugar do mundo), talvez nem imagine que, quando segura um livro, tem nas mãos mais do que uma história contada. Para que aquele lindo objeto - cheirando a novo! - chegasse até as prateleiras comerciais foi preciso muito esforço. Escrever um livro é correr uma maratona. Muito suor e lágrimas, horas solitárias e infindáveis de treino, num repetitivo desfiar de ações: escrever, ler, rasgar, prosseguir. Acrescente aí o fato de que o escritor permanece em estado gestacional por meses a fio, esperando o momento exato de dar à luz. E, ao contrário do que muitos pensam, a inspiração não desce dos céus. Ela tem de brotar de dentro, como semente que deita em solo fértil e decide crescer e aparecer.
Acontece que, às vezes, uma ideia sensacional teima em não querer se enquadrar nas medidas de uma  folha. Num rasgo de capricho, aquela história está decidida a não facilitar! Lá está o escritor, misto de Hércules, talhando-a com carinho paciente, escolhendo palavras como quem escolhe flores para amada. Mesmo assim, a receita pode desandar como se fosse um belo suflê que murchou sem aviso prévio.
Um escritor é um trabalhador braçal, acredite. Um ser tomado por paixões, arrebatado pela estranha e insistente necessidade de transportar o que observa para o interior de páginas em branco. Um escritor é um catador de sonhos, um colecionador de emoções à serviço da memória - sua e alheia.
O leitor que caminha por uma livraria (em qualquer lugar do mundo), quando segura um livro, carrega  também consigo a Humanidade.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Nós, os vampiros

Quando achavamos que Anne Rice tinha dado conta da modernização dos vampiros, tornando-os seres atormentados pelo homossexualismo, pela impossibilidade do crescimento e por um mundo de consumo desenfreado, as prateleiras se encheram de neovampiros de todo tipo, dos caipiras amorais de Charlaine Harris aos românticos adolescentes de Stephenie Meyer na série Crespúsculo. Moda que passa rápido?
Acadêmicos americanos como Nina Auerbach, Jane Gordon e Veronica Hollinger acham, há pelo menos 12 anos, que não. Em 1997, junto com vários outros, elas publicaram o livro "Blood read", leitura do sangue, "o vampiro como metáfora da cultura contemporânea" e deram várias explicações oportunas sobre a febre que já detectavam então, e que eclodiria nesta primeira década dos anos 2000.
As explicações são muitas. A morte desritualizada na cidade, súbita, por vezes entre estranhos e sua contrapartida, o desejo de uma morte ritualizada, a atração exercida pelos mitos herdados do campo, quando não nos imaginávamos nas cidades que estamos hoje, superpopulosas e, ao mesmo tempo, sobretudo em seus centros financeiros, desertas, nos finais de semana, por exemplo; a intensidade sexual que o vampiro sempre simbolizou, e finalmente a permanência de um dos mais poderosos arquétipos herdados da literatura novecentista. Desde  Le Fanu, de Byron, de Polidori, e do "Drácula" de Bram Stoker, o vampiro fala ao leitor de poder, de transcendência, de nossa atitude em relação ao mal e à doença, de um outro, esquisito, que habita, sem que saibamos, entre nós ( um imigrante, alguém fora de nossa comunidade), de uma atitude inerentemente "desconstrutora" que hoje é um símbolo quase fácil demais para a sociedade pós-moderna. O vampiro fala de segredos e proibições, de destinos e maldições, e de hedonismo e saciedade subjetiva buscada não importa a que preço. Não são poucos argumentos para justificar a atração que ele representa para um escritor, sobretudo alguém que escreve para a massa, usando as bem azeitadas armas da cultura pop.
O livro "Blood read", um clássico, juntamente com outro de Nina Auerbach intitulado "Our vampires, ourselves" chancela o gosto popular. Vampiros não são apenas ótimo tema para romances ( inclusive brasileiros, onde aparecem de forma sugerida ou pastichada). São matéria-prima suculenta para ensaios ricos em todo o tipo de ilações.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Na cascata da vida

Um caminho leva a outro que leva a outro que leva a outro. São todos diferentes, mas todos são caminhos. Minto. Digo que é caminho, porém é mais pra descaminho. O que importa? Não as preferências.
Preferências não cabem no romance Harmada de João Gilberto Noll. Uma vida assim, uma vida assada? Invento-a desta forma: o sentido é dar espaço ao inesperado, ao inusitado, ao que chega de supetão e corta um segmento da nossa existência, marcando ali uma virada, uma curva incontornável que se apresenta sem dar chance para grandes crises ou paralisias, pois essa curva que é a vida, a vida que vem e de repente, bem de repente e... uma outra vida já nos leva em sua enxurrada. E nela precisamos saber boiar.
Poderiam ser os despedaços, as ruínas, as cinzas e a fuligem, mas há em tudo uma busca, uma busca pelo não-sabido, uma busca pelo não-acontecido, e talvez nem importe se haverá um sabido e um acontecido, o que vale é continuar, seguir o fluxo dos afetos despertados, dos detalhes aprisionados, e acreditar: há nisso uma construção. Ou não. E daí?
Inacreditavelmente, lembro-me de Roberto Carlos: "O importante é que emoções eu vivi."
Em Harmada, nada precisa de uma desculpa.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Mago e a Leitora



Paulo Coelho escreveu cada um dos seus livros para mim. Embora o meu nome não apareça em dedicatória alguma, reconheço, no folhear das páginas das obras do aclamado escritor brasileiro, os receios que tenho, as decepções que vivi, os desejos e sonhos que, como bússola, guiam esse corpo que abriga calorosamente meu espírito caminhante.
Sou Veronika, que morre para renascer, sou Athena, deixando marcas por onde passo, fazendo alquimia com meus percalços, transformando lágrimas em recomeços. Sou Maria, sou Pilar, sou Brida e também Esther, aquela que desaparece para que o Amor a encontre. Meu caminho tem arcanjos, tem verdades e mentiras, júbilos e fracassos, pegadas minhas e de quem caminha ao meu lado. Quero o barco Palavra nos portos que sigo construindo enquanto cresço.

O Mago-homem, que tirou da cartola um jeito único de fazer literatura, me encanta porque escreve cada linha de seus livros especialmente para mim, sua leitora. É o que basta para nos entendermos.

sábado, 7 de novembro de 2009

Marguerite Duras, frescor de verão


São dez e meia da noite, no verão, e termina-se a leitura do primeiro livro de Marguerite Duras. Quando lhe contaram que Duras era uma escritora de verdade, não soube, naquele momento, avaliar essa máxima. Agora, é como se soubesse.
Primeiro, a ligeireza da história. Em segundo, sua profundidade, em terceiro, sua estética, em quarto, poesia.
Dez e meia da noite no verão lança o leitor a um olhar sobre um grupo de férias na Espanha. O movimento circular de diálogos entre Maria, Pierre, Claire e Judith depara-se continuamente com a impossibilidade do amor a um outro, em específico.
Tão logo o sol canta a sua chegada, uma silhueta de corpo teima em impedi-la.
Como um traço que tangencia esta redoma, a ocorrência do crime passional de Rodrigo Paestra, um morador da cidade, deflagra a exacerbação de todos os sentimentos do grupo estrangeiro.
Uma paixão incadescente habita as entrelinhas de Duras, sem resquícios de clichês. Somos sugados por esta leitura centrifugal que nos leva a uma epifania, a da descoberta de um amor maior, vivida por Maria. Um vento quente a aconselha em determinado momento da história: "É o verão, essa incandescência, essa irrupção de um amor finalmente sem objeto" ... "Um sol inunda-lhe o corpo, entra-lhe a boca entreaberta".
Um verão intenso, que nada o impeça.
Uma escritora grandiosa.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Como era bom ser repórter!, por Nelson Brandão


O livro “Pô! Que mentira, pai! As aventuras e desventuras de um repórter” lançado terça-feira, dia 3 de novembro, é de um amigo meu, Nelson Brandão, companheiro da redação de O Globo, onde o conheci quando comecei a estagiar lá, no início da década de 1970.
As histórias contadas por Brandão, que até ano passado era redator do jornal Extra, filhote de O Globo, são muito legais e divertidas. Pelo menos para quem já foi repórter, para quem nunca foi, mas gosta de saber histórias daquela época, e para quem quer apenas se entreter. Bem escrito e vibrante, o texto de Brandão prende a atenção do leitor desde a introdução, quando ele conta como começou a trabalhar em redação de jornal, até o último capítulo. E é tudo verdade.
“Pô! Que mentira, pai!...” é mais uma prova, assim como a biografia de Tim Maia, escrita por Nelson Mota, de que a vida real é mais criativa e maluca que a ficção.
Então, se você só ouviu falar das passeatas de 1968 no centro do Rio de Janeiro, se você já não se lembra mais que um pedaço do elevado da Paulo de Frontin caiu sobre a rua Haddock Lobo, matando e ferindo muita gente; e acredita que Bateau Mouche é só o nome daqueles barcos engraçados que navegam pelo rio Sena, em Paris, sente-se na sua mais confortável poltrona, abra este livro e delicie-se com a leitura de um texto bem humorado (até onde se pode ser em certos assuntos), sagaz e agradável. E que também é um dos testemunhos mais fidedignos de como era bom ser repórter de jornal na era pré-internet. Você, leitor/leitora vai adorar!