O QUE É CURABULA?
É uma bula para curar. A bula é um livro. Do amor aos livros nasce a partilha, o clube, a irmandade. Curabula Livroclube é um projeto que aproxima livros e leitores em escolas, associações, comunidades, bibliotecas, espaços de arte. Há três outras modalidades, além do Curabula Livroclube, propriamente dito. O Curabula Social, que abre portas para quem não deve temê-las, o Curabula Pessoal, que estimula a troca de ideias para fazer crescer o leitor que há em todos nós, e o Curabula Empresarial, que humaniza as relações no trabalho.
O Curabulalivroclube Blog é um clube na Internet que tem o espírito de todos esses outros acima.
E você, leitor e colaborador, é quem ajuda a instilar nele vida e alma.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ouvindo Cézanne, Degas e Renoir

O autor deste livro, Ambroise Vollard (1866-1939), foi um conhecido marchand de tableaux e colecionador, certamente aquele que mais se destaca entre os marchands dos finais do século XIX.
Amante da arte moderna de vanguarda era amigo dos mais conhecidos pintores da época, tais como Cézanne, Gauguin, Van Gogh, Matisse, Picasso. Alguns deles, como Cézanne e Picasso, fizeram suas primeiras exposições graças ao esforço de Vollard.
Em Paris, sua galeria de arte, Vollard, com sua famosa cave era freqüentada por artistas e intelectuais.
Em seu livro Ouvindo Cézanne, Degas, Renoir, Vollard nos relata momentos de sua convivência com estes três grandes pintores, em três partes separadas, cada uma correspondendo a um pintor. Sem relatar quase nada da vida privada dos pintores, o livro traz à tona conversas sobre artes, que anos de convivência trouxeram aos implicados. Suas lutas diárias no ateliê, suas lutas pela comercialização das obras.
Assim, o leitor tem informações sobre o contexto das artes plásticas no final do século XIX e no início do século XX, época em que estava se iniciando o Impressionismo, e daí para adiante.
Muito criticada pelo status-quo, os pintores da arte de avant-garde precisaram lutar muito para ter um reconhecimento, muitos deles não chegando a tê-lo em vida.
Eram tantos quadros recusados no “Salão Oficial” que chegou a se criar, por iniciativa do Estado, o “Salão dos Recusados, onde, por exemplo, está Manet, com seu “Déjeuner sur L´Herbe", quadro hoje em dia considerado tão importante.
Vollard lançará Cézanne, primeira exposição, em 1895, por exemplo, para tal correndo atrás dos quadros abandonados em sua cidade natal, Aix de Provence.
Essas histórias curiosas constituem o livro, e podem interessar a um estudioso de artes plásticas para conhecer um pouco do contexto da pintura na época, e das opiniões dos artistas envolvidos sobre seu ofício e o de seus colegas.

OBSERVAÇÃO: Volllard morreu em um acidente repentinamente, e seus quadros estão espalhados por museus de todo o mundo. Em 2007 , 170 peças foram reunidas no museu d´Orsay por ocasião da exposição “De Cézanne a Picasso. Obras-primas da galeria Vollard”.


Texto de Márcia Cavalcanti

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Prece fervorosa

“Santo Afonso Henriques! Fazei de mim uma escritora. Nada de festivais, de júris em concursos (de beleza ou literários), de cargos em repartições chamadas culturais, de capelas, de frases de espírito. Livrai-me dos fascínio que tantos de nossos autores hoje, têm pelo convívio com os ricos, pela adoção obrigatória de livros seus na área estudantil, pelas viagens com passagem e hotel pagos. Fazei-me orgulhosa de minha condição de paria e severa no meu obscuro trabalho de escrever”.

Dos papéis de J.M.E. in : "A rainha dos cárceres da Grécia”, de Osman Lins.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O terror em estado bruto

Com silêncios DeLillo molda uma enigmática realidade baseada no 11 de Setembro

O estilo de Don DeLillo é conhecido pela maioria de seus leitores, um amplo horizonte entrelaçado de figuras históricas com indivíduos ficcionais. Nesse romance, porém, o único ser nomeado é Mohamed Atta, um dos mentores da tragédia do 11 de Setembro. DeLillo mantém o foco numa família de classe média de Manhattan, oferece várias doses de silêncios e enigmas até a inesperada seqüência final. O romance mantém-se, mesmo, no que poderíamos chamar uma certa espiritualidade nouvelle vague. No entanto, ao invés de estabelecer com essa dicção a inércia, o efeito obtido é o de uma bomba devastadora revelando o terror em seu estado bruto.
Conhecemos Keith, um advogado de cerca de 40 anos de idade, que escapa das torres em queda, para logo aparecer na casa da ex-mulher, Lianne. Carrega a pasta de outra pessoa, situação que o ligará por um tempo a outro sobrevivente, “uma mulher de pele morena”, de quem obtém sexo e lembranças daquele lugar devastado. Nas ruínas do 11 de Setembro a história parece sempre nos oferecer uma falsa confusão. A solidão impera de forma consumidora e as palavras agem em toda a sua fragmentação. Homem em Queda não se satisfaz com meros acasos e nos revela realidades distorcidas, uma visão estigmatizada de Keith que não impede que possamos, em meio aos seus devaneios, vislumbrar os escombros de seus pensamentos.
Quando em dado momento, no entanto, o escritor rompe essa atmosfera de distorção e passa a analisar o 11 de Setembro sob o ponto de vista dos seqüestrados, tudo muda. Ele descreve com talento superior toda trama dos ataques que abalaram o mundo. E expõe personagens que envolvem e reconstroem a trama de uma forma diferente.
O vilão, Bin Laden, não é citado. Há, apenas, uma possível aproximação de um inimigo chamado Bill Lawton, feita por garotos que vigiam, de binóculos, do vigésimo-sétimo andar de um prédio, os céus da cidade, rastreando os próximos aviões que serão enviados pelo inimigo.
Homem em Queda é um romance cuja forma e conteúdo não eclipsa a vida depois do 11 de Setembro e seu título deriva da cena do homem que cai de cabeça da torre norte. Algo que realmente choca e estabelece a negra lembrança daquele fatídico dia.

Texto de Jeff Negromonte

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A perda de outro "amigo"

Tudo bem que ele, recluso, já não escrevia há uns 500 anos. Mas a morte de Salinger, o J.D. (Jerome David) Salinger, o autor do ícone "O apanhador no campo de centeio" deixa um sentimento comparável ao da perda de um amigo, por exemplo. Depois das mortes de Montalbán (Manuel Vásquez) e Patricia Highsmith o que sinto é como se perdesse um conhecido, sei lá, e logo penso em como ficarão seus personagens. Ficam, é claro, comigo na minha estante (e na dos outros) dos livros que amo (amamos), e relerei, mas sempre com o sentimento da perda trazida pelo desaparecimento do seu criador. Salinger e seus  livros (poucos) marcaram e continuam marcando muita gente boa. Confesso que o conheci tarde, fora da adolescência que é vital para seu principal herói Holden Caulfield, e gosto mais (?) dos seus outros livros, principalmente o "Franny e Zoey". Época de reler, ou quiçá, deixar para reler quando a sensação da perda for menor. Pode parecer piegas, mas a presença de autores queridos é fundamental, independente da permanência das suas obras. Graças a Deus.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Imersão em clássicos


Começou quando meu cunhado resolveu se desfazer da coleção de clássicos comprada pelo pai, torcendo para os filhos lerem. Os filhos não leram durante anos e, um belo dia, cansaram de olhar as lombadas não lidas.
Um rápido telefonema e a cunhada leitora acolheu as caixas de volumes de couro vermelho, colocou-as no banco traseiro do carro, e subiu a serra com elas. Nada melhor para os clássicos do que uma casa no alto da colina, programada exclusivamente para o lazer e para as horas modorrentas.
Arrumados em prateleiras de madeira, bem instalados, ficaram por alguns meses intocados no quarto a eles destinado.
Neste verão, ao programar as férias, meu primeiro impulso foi repetir a rotina de outros anos. Separei uma pequena pilha de DVDs e alguns livros policiais. Panacéia perfeita para arejar a cabeça, lavar as leituras do ano que passou e me preparar para os desafios profissionais de 2010.
 No segundo dia do autoimposto exílio as lombadas vermelhas me hipnotizaram. Ali estava "Moby Dick", de Herman Melville, que nunca consegui destrinchar inteiro, "Retrato do artista quando jovem", de Joyce, que eu havia lido há muito tempo e provavelmente mal, "Pais e filhos" de Turgueniev, "Orlando", de Virginia Woolf, um absoluto favorito do final de minha adolescência. Folheei alguns, revisitei outros, como "Contraponto", de Aldous Huxley, mas mergulhei, de fato, nas páginas incrivelmente bem elaboradas de Melville e na belissima tradução de Marina Colasanti para "A romana", de Alberto Moravia.
Na hora de vir embora, coloquei na sacola "Almas mortas", de Gogol  e "Nosso homem em Havana", de Graham Greene. A leitura dos clássicos pede mais leitura de clássicos, anotei.Há nela um fator compulsivo.
E os policiais? - perguntarão os fãs do gênero. Para não dizer que foram totalmente negligenciados, confesso que alternei Melville com "O campeonato", de Flávio Carneiro, uma reedição pela Rocco, de uma publicação original da Objetiva. É um policial brasileiro, e dos bons. Inteligente, ritmo ágil, prosa sagaz, personagens deliciosos e um diálogo com Edgar Allan Poe e Rubem Fonseca que é um achado.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Um homem

E que todas as vontades sejam sublimadas. Este é o desfecho de Um homem comum de Philip Roth. Não queria iniciar a postagem contando o final da história, mas digo desde o início que o livro começa com uma morte. E que no final, dela se aproxima novamente. A memória da morte e o anúncio da morte, consentido pela certeza da doença que disserta um futuro próximo. Um homem que reinvindica seu próprio epitáfio, porque acredita que ainda é cedo. Um homem comum, un homme - como em francês foi publicado - encurralado num hiato obrigatório, antes que seja tarde. E que tempo seria esse justaposto sobre a alegria e a protuberância do corpo saudável, sobre o fantasma da juventude?
Um tempo que o autor Roth consegue descrever com extrema delicadeza e sinceridade. O olhar deste homem comum encruzilhado através das lentes de uma auto indulgência que lhe é nova. E quando volta-se aos outros, não existem mais anteparos ao sentimento de inveja. Não trata-se de mau grado. É verdadeiro e principalmente, humano: deseja-se aquilo que nos pertence ou o que um dia nos pertenceu.
Na fronteiríça barreira da doença, um homem comum está acordado, e não pretende dormir tão cedo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Fred Vargas nas férias


Só na vida adulta comecei a apreciar livros policiais, como muita gente no Brasil, aliás, mas ainda sinto que apenas nas férias tenho o "direito" de devorá-los. Vá saber que culpa introjetada é essa... Meu favorito ainda é o prolífico Simenon, com seu inspetor Maigret zanzando pelas avenidas de Paris, comendo bem graças ao zelo de madame Maigret, tomando calvados entre um interrogatório inteligente e outro. Sem a violência dos norte-americanos. Mas acabo de descobrir Fred Vargas, pseudônimo de uma historiadora e arqueóloga medievalista nascida em Paris em 1957, criadora do inspetor Adamsberg, igualmente fascinante.

Ao contrário de Maigret, este é um inspetor desorganizadamente pós-moderno, descasado, cheio de dúvidas existenciais, sexuais, comportamentais. O livro que li, "Relíquias Sagradas", tem um monte de boas surpresas, falsos fantasmas, viradas na história, personagens que parecem uma coisa e são outra, bons que se revelam maus, comentários sobre a sociedade francesa, inclusive rivalidades regionais. Suspense, frisson, medo que aos poucos se dissipa...adorei! É também um prazer acompanhar o texto de alguém que domina inteiramente seu ofício, com diálogos muito bem construídos e nenhuma palavra sobrando.